sexta-feira, 4 de julho de 2008

O primeiro voo aproxima-se...

Terminei recentemente o trabalho de censo e monitorização da população de grifo na beira Baixa e Alto Alentejo e estive no início da semana na colónia das Portas de Ródão. A produtividade da colónia foi bastante boa, tendo apenas falhado 3 dos 32 casais presentes. A maioria das crias estão mesmo na fase dos primeiros voos, havendo já alguns que se aventuram uns metros largos dos ninhos e efectuam já curtos voos.
No caso do "nosso grifinho/a, o primeiro voo terá que ser a sério, pois não tem locais onde pousar abaixo da plataforma onde está ninho. É por isso conveniente que treine muito e que esteja em forma para que quando se aventurar pelos penhascos o consiga fazer bem de modo a não cair no Tejo

terça-feira, 17 de junho de 2008

Porque foram as cegonhas-pretas da Estónia anilhadas com as anilhas acima da articulação?

Para cada espécie é utilizado um tamanho de anilha apropriado para a dimensão do seu tarso ou tíbia (parte abaixo e acima da articulação respectivamente). Na maior parte das espécies as anilhas são colocadas logo acima da pata, no tarso. No entanto, em algumas espécies de aves aquáticas que possuem tarsos e tíbias muito longos, como é o caso das cegonhas, das garças e das limícolas, as anilhas podem ser colocadas na tíbia (acima da articulação), dado ser mais "confortável" para as aves, que geralmente se alimentam dentro de água, em zonas com lama e é também mais vantajoso para os observadores humanos, uma vez que as anilhas de cor se mantém mais limpas e visíveis. Os anilhadores tem sempre como primeira preocupação o bem estar das aves e todos os resultados (positivos ou negativos) são comunicados para quem coordena a actividade de forma a que a anilhagem e as anilhas sejam o mais inócuas possível para as aves. Convém também realçar que a anilhagem de aves tem geralmente objectivos específicos de carácter científico que a justificam e só se realiza quando há um objectivo a atingir.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Como distinguir a cria dos progenitores?


Há vários aspectos que permitem uma distinção mais ou menos fácil, momeadamente:


cor do bico - o bico dos adultos é claro, cor de corno, enquanto que o da cria é preto


Cor da plumagem - os adultos apresentam o dorso castanho-claro, cor de areia, enquanto que os juvenis tem o dorso castanho mais escuro


Cor e forma do colar em volta do pescoço - o colar que apresentam no pescoço é branco e com aspecto de penugem no pescoço, enquanto que nos juvenis é de cor castanha e mais "eriçado" (que resulta das penas serem um pouco mais longas)


A adicionar a isso, o jovem tem um pescoço e cabeça que contrastam mais com a plumagem do dorso e que lhes dá um aspecto mais branco (resultante do contraste).

Adiciono uma imagem da nossa cria para que possam ver melhor as características que refiro

Porque varia tanto a frequencia com que os progenitores alimentam a cria?

Foram efectuadas várias questões relacionadas com a frequencia da alimentação da cria, da aparente escassez de alimento quando esta era mais quequena e da existência de alimentadores de aves necrófagas nas proximidades da colónia. Vou ver se consigo responder a tudo de uma assentada.
Os requisitos energéticos da cria aumentam à medida que cresce, ou seja, a quantidade de alimento que necessita diariamente vão sendo maiores à medida que cresce. Como referi num texto anterior, a disponibilidade de alimento para esta espécie é muito variável (numa situação natural), pois este ocorre de forma irregular no espaço e no tempo e é efémero, ou seja a duração de uma fonte de alimento é muito limitada. Os grifos, como outros abutres e muitas outras espécies de aves em que o alimento está disponível de forma idêntica (por exemplo muitas das espécies de aves marinhas) estão adaptados a esta limitação e possuem mecanismos que lhes permitem sobreviver, como acumularem reservas e poderem passar vários dias sem se alimentarem; outra adaptação e comerem grandes quantidades quando tem oportunidade para tal (no caso dos grifos, chegam a ter dificuldade em levantar voo, após uma grande refeição). Nos primeiros tempos de vida da cria a quantidade de alimento que necessita diariamente é relativamente pequena, embora seja necessária alguma regularidade na sua alimentação por parte dos progenitores, pois a sua capacidade de "jejuar" é muito limitada. Embora pareça que nos primeiros tempos os progenitores a alimentaram poucas vezes, o que aconteceu é que lhe forneceram alimento em quantidade e com regularidade suficiente para que se continuasse a desenvolver bem. Mais recentemente o apetite da cria aumentou significativamente e nesta fase parece que tudo o que os progenitores tragam é pouco, pelo que comerá sempre que os progenitores lhe tragam alimento. Nos primeiros dias após a saída do ninho, possivelmente iremos assistir a verdadeiras perseguições dos progenitores por parte da cria que insistentemente lhes irá pedir alimento. Estes acederão aos pedidos nas primeiras semanas, mas posteriormente dar-lhe-ão cada vez menos refeições, o que a forçará a procurar alimento por si própria, seguindo os progenitores ou outros elementos da colónia. Este é geralmente um dos períodos mais críticos na vida das crias, em que geralmente se observa uma maior mortlidade, pois muitos morrem nos primeiros meses por não conseguirem alimento suficiente.
Quanto à existência de alimentadores de aves necrófagas na região, não há nenhum em funcionamento nas proximidades. O único que está a funcionar regularmente encontra-se na serra da Malcata e é gerido pelo ICNB. No entanto, como nesta zona e nas regiões espanholas adjacentes a criação de gado é feita regra geral em regime extensivo, em que os animais que morrem por vezes não são encontrados de imediato pelos proprietários, antes destes activarem o sistema de recolha obrigatório, permite que os abutres se alimentem. Por outro lado toda a região do Tejo Internacional é muito rica em ungulados silvestres, nomeadamente veados e javalis, e estes também constituem uma fonte de alimento bastante importante.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Outra possível explicação para o ataque do Abutre de Rueppell à cria

Ontem à noite enquanto falava com um amigo e grande ornitólogo Carlos Noivo, que trabalha como Vigilante da Natureza na Reserva Natural do Paul do Boquilobo, ele avançou com outra explicação para o comportamento que observamos no clip de dia 29 de Maio, resultado de observações que fez no local.
O Carlos observou por 3 ocasiões diferentes (pelo menos em 2 anos diferentes) o Abutre de Rueppell atacar crias de grifo, em ninhos diferentes, para as obrigar a regurgitar o que tinham ingerido e conseguir assim uma refeição "grátis" com muito baixo custo energético para ele. Se repararem bem no clip de dia 29, vê-se que tal pode ter acontecido, pois após a agressão inicial, ele passa um bocado com a cabeça em baixo, sendo possível que se esteja de facto a alimentar de comida regurgitada pela cria.
Infelizmente as imagens não são totalmente esclarecedoras, mas parecem suportar esta hipótese. Mais uma vez se demonstra a grande utilidade deste projecto para a observação de comportamentos raros e de difícil observação, pena não se conseguir observar a totalidade da área onde a cria se desloca. Pode ser que ainda se observem mais comportamentos interessantes nos próximos dias.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Que informação temos sobre os progenitores? Estão anilhados?

Os progenitores não estão anilhados, pelo que não é possível ter a certeza absoluta de serem os mesmos ao longo dos anos que o ninho tem estado ocupado. No entanto, observou-se fidelidade aos ninhos por diversos anos consecutivos de alguns indivíduos anilhados e o facto do casal ser constituído por dois indivíduos bem adultos (com mais de 8 anos, idade a partir da qual se torna impossível distinguir as classes de idades - sub-adultos e adultos) leva a supor que se trata do mesmo casal. Caso assim seja, criaram com sucesso uma cria em cada um dos últimos 5 anos.

Quanto tempo passam os progenitores fora do ninho?

É muito variável e depende da disponibilidade de alimento. O facto de se alimentarem de animais mortos faz com que, em situações naturais, o alimento surja de forma irregular no espaço e no tempo. Os adultos, tal como as crias bem desenvolvidas, podem passar vários dias sem comer, peo que as visitas para alimentar as crias podem não ser diárias em alturas de escassez de alimento.
Pessoalmente observei na zona do Tejo Internacional um progenitor de uma cria pequena, que estava anilhado, a dormir noutra colónia a cerca de 20 km do seu ninho. Provavelmente ter-se-à deslocado para muito longe em busca de alimento (podem afastar-se até 80 km da colónia) e dormiu longe do ninho, provavelmente para continuar a busca ou então por haver naquela zona uma fonte de alimento.