segunda-feira, 2 de junho de 2008

Questão acerca do som

O sr. António questionou se seria tecnicamente muito difícil ou oneroso proceder à captação e transmissão dos sons na envolvente do ninho. Teria sido necessário a aquisição de equipamento de som, uma vez que a câmara não tem incorporado um microfone. Não tenho a certeza se seria possível fazer a ligação desse equipamento â câmara, mas penso que sim. Em termos técnicos da instalação propriamente dita no local não teria sido complicado, no entanto essa possibilidade não foi equacionada pois no início do projecto, pois implicaria mais equipamento (com algum custo) e o vento que habitualmente se faz sentir naquela área poderia não permitir a recolha de som com qualidade.
Outro aspecto relevante é que o ninho se encontra a cerca de 50-60 metros da câmara, pelo que a gravação de sons a essa distância seria praticamente impossível.

Quantos casais de grifo há na colónia este ano e quantas crias?

Em 2008 iniciaram a nidificação na colónia das Portas de Ródão 23 casais de grifo. Este número inferior ao registado nos últimos anos (em 2006 e 2007 havia 32 casais).
Quanto ao número de crias, ainda não tenho um valor definitivo, pois só será feita a determinação da produtividade quando as crias estiverem quase a atingir a idade de voar, mas aparentemente a maioria dos casais está a conseguir criar o filhote com sucesso. Embora não tenha contado a colónia na totalidade recentemente, creio ter registado 15 crias já bastante desenvolvidas no mês de Maio. Dentro de mais uma ou duas semanas darei valores mais definitivos.

Porque não conseguimos ver ninhos de outras espécies como nos haviam anunciado?

As coisas nem sempre correm como nós queremos. A surpresa que estavamos a querer anunciar era que se poderiam visualizar também imagens de um ninho de Cegonha-preta (Ciconia nigra), cujo ninho se encontrava numa situação muito favorável para a câmara (a selecção inicial do local de colocação da câmara não foi aheia a este facto). No entanto os animais não se comportam como queremos e o casal escolheu um novo local para edificar um novo ninho, muito próximo do anterior, mas totalmente fora do alcance da câmara. Foi pena pois este casal tem neste momento 3 crias com cerca de 33 dias de idade e teria sido muito interessante alternar a visualização das ninhadas das duas espécies. Pode ser que no próximo ano...

É necessário colocar uma protecção na beirinha das escarpa para que a cria não corra o risco de cair?

Não, não é necessário esse tipo de cuidados. Os grifos evoluiram a nidificar em escarpas, dado que estas conferem uma boa base para a instalação dos ninhos e, regra geral, protecção contra predadores terrestres (como raposas) por serem inacessíveis. As crias possuem alguns mecanismos comportamentais que lhes permitem manterem-se mais seguras, nomeadamente comerem na posição deitada ou de "joelhos" (isto é, apoiados nos tarsos) quando os progenitores os alimentam, evitando assim desiquilíbrios e possíveis quedas, até estarem suficientemente desenvolvidos para se sentirem seguros em pé. Também se deslocam muito pouco na escarpa durante a maior parte do seu desenvolvimento e só quando a necessidade de fortalecerem as asas e os músculos se torna premente é que começam a aventurar-se um pouco mais.
Neste caso concreto o nosso grifinho é um previligiado, pois o seu ninho está numa plataforma muito grande e ele tem imenso espaço para treinar sem correr grandes riscos. Há outros ninhos nesta colónia em que as crias não tem mais do que o ninho para se moverem.
Apesar destas adaptações comportamentais, esporadicamente acontecem quedas acidentais, por exemplo uma rajada de vento quando as crias estão a exercitar as asas, mas são situações muito pontuais.

Na colónia das Portas de Ródão já se registaram diversas quedas de juvenis dos ninhos por passagem de aviões da força aérea demasiado próximos do local, mas aí o que os leva a cair é atirarem-se devido ao susto e ainda não terem capacidade de voar. Algumas destas crias bem como outras de quedas acidentais que cairam ao rio foram recolhidas ainda vivas por pescadores locais e levadas para o Centro de Recuperação de Animais Selvagens de Castelo Branco (CERAS) onde puderam completar o seu desenvolvimento, aprender a voar e foram posteriormente libertadas junto da colónia.

Como se comportaram os progenitores?

Quando me aproximei do ninho encontrava-se lá um dos progenitores, que voou quando sentiu a minha aproximação. Durante o período em que estive no ninho andou a voar sobre as escarpas e passados alguns minutos após a minha saída das imediações regressou para junto da cria. Trata-se do comportamento habitual neste tipo de situações. Trata-se certamente de um stress para a cria e para os progenitores (quando presenciam a operação), mas tudo volta ao normal após alguns minutos. Daí termos que ser celeres neste tipo de operações. Esperemos agora que a anilha nos permita voltar a ter notícias do grifinho durante a sua vida após o abandono do ninho.

O risco de abandono da cria/ninho pelos progenitores nesta fase é muito reduzido, dado o grande investimento que foi feito na reprodução até aqui. No entanto aproximações este tipo podem facilmente provocar o abandono dos ninhos na fase da construção ou no período em que estão a fazer a postura ou a incubar os ovos. Por isso os técnicos autorizados a proceder a este tipo de operações, além de terem que estar habilitados a fazê-las, apenas visitam os ninhos quando é estritamente necessário e fazem-no sempre no período em que os riscos para as aves são mínimos.

Como se comportou o grifinho durante a operação de anilhagem?

Como referi anteriormente a abordagem ao ninho e à cria tem que ser muito cuidadosa e temos que ter permanente atenção ao comportamento da cria. Neste caso o comportamento da cria foi ficar muito quieta como que a fingir-se de morta, o que é habitual nesta espécie. Isso facilitou a aproximação e o restante desenrolar da operação. Após a minha aproximação e durante a anilhagem a cria ficou algo nervosa, mas ficou calma e regressou à sua normal actividade após a minha saída e, principalmente, o regresso de um dos progenitores.

sábado, 31 de maio de 2008

Havia o risco dos progenitores abandonarem a cria e não retornarem a alimentá-la?

Essa possibilidade é praticamente nula no caso do grifo nesta fase do desenvolvimento da cria. Pela minha própria experiência e pela experiência de muitos biólogos e anilhadores com quem contacto, desde que a cria esteja bem e o evento perturbador seja pontual e de curta duração como a anilhagem ou a passagem nas imediações do ninho de um predador, os progenitores regressarão após o afastamento da ameaça.

Já marquei mais de 600 aves desta e de outras espécies de grande porte em situações semelhantes e nunca observei um abandono. Claro que todas as operações foram sempre efectuadas com todos os cuidados que referi anteriormente.

Preparação da operação de anilhagem

Como havia referido no comentário que enviei, a logística para uma operação desta natureza é sempre algo complicada. O ponto essencial em qualquer acção de maneio de uma espécie que os técnicos fazem é assegurar que o risco de algo negativo acontecer ao espécime em causa (ave ou outro) é reduzido ao mínimo. Por isso tudo é planeado atempadamente de modo a assegurar que não há falhas e que a segurança da ave e da pessoa que procede à intervenção é integralmente assegurada.
Assim, em primeiro lugar, há o período em que se pode proceder à operação em segurança, ou seja a "janela" na qual a cria tem já dimensão suficiente para ser anilhada, mas ainda não está suficientemente desenvolvida para que haja o risco de saltar precocemente do ninho. Neste caso concreto estavamos a aproximarmo-nos a passos largos do limite máximo da idade a partir da qual não poderíamos proceder à intervenção.
Depois há que analisar com muito cuidado todo o trajecto até ao ninho, se é mesmo possível lá chegar e se este pode ser efectuado em segurança pelo anilhador. Isto implicou a presença de uma pessoa a dar indicações a partir da outra margem do rio. Do mesmo modo a abordagem ao ninho (de cima ou de baixo) e à cria tem que ser equacionada para reduzir ao mínimo a possibilidade da cria de poder deslocar e haver risco de queda. Por outro lado há que ter em conta que este tipo de operações provoca perturbação significtiva das aves, pelo que se tem que minimizar o mais possível, sem descurar a segurança, o tempo dispendido na realização de todas as operações. Todos estes passos foram pensados com calma para que tudo corresse de acordo com o planeado, o que aconteceu.

A abordagem ao ninho acabou por ser algo mais complicada do que inicialmente previsto, uma vez que a parede apresentava grandes diferenças de relevo, o que obrigou à utilização de algumas técnicas algo complicadas como ter que balançar na corda para agarrar um ponto de apoio e então progredir para o ninho. Mas tudo correu optimamente e de forma rápida e eficaz, o que se pode observar após o retorno de um dos progenitores ao ninho muito pouco tempo após a intervenção.

A cria encontra-se em óptima condição física, está gordinho, não apresenta quaisquer sinais de doença ou parasitas e tudo indica que os progenitores levarão a bom termo a sua criação até à idade da emancipação.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Porque é o abutre de Rueppell dominante na defesa o ninho?

Penso que terá sido este o comentário a que a Teresa se refere que não terei respondido. O que se passou foi que guardei o rascunho e não editei a mensagem. Aqui vai.
Em espécies que utilizam os mesmos ninhos com regularidade ao longo dos anos, regra geral, a ave que primeiro ocupa um determinado ninho (no caso dos grifos) ou território (no caso de espécies territoriais como a águia-real ou a águia de Bonelli), tem uma grande motivação para o defender e, regra geral, conseguem expulsar eficazmente os intrusos. A defesa dos ninhos/territórios normalmente é efectuada por ambos os membros do casal, o que torna a defesa mais eficaz.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Qual é a ave, do tamanho de um melro, que visita o ninho?

Que me tenha apercebido, visitam esporadicamente o ninho duas espécies, ambas típicas de meios rochosos: o Melro-azul Monticola solitarius, que tem a dimensão aproximada de um melro Turdus merula e que podemos ver nos nossos parques, jardins, hortas, etc., embora mais compacto. Os machos são de um tom azul-acinzentado e as fêmeas são castanhas, tendo ambo o bico preto. A outra espécie que surge com regularidade é o rabirruivo-preto Phoenicurus ochruros, sendo que este pode ser facilmente identificado porque quer o macho quer a fêmea apresentarem a cauda de cor laranja. É sensivelmente do mesmo tamanho de um Pisco-de-peito-ruivo Erithacus rubecula.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Qual o sexo do Abutre de Rueppell?

Não se conhece qual o sexo do abutre de Rueppell, dado que, tal como no caso dos grifos, não há dimorfismo sexual, sendo o macho e a fêmea praticamente idênticos. No entanto, e abusando da minha experiência e no comportamento dele, atrever-me-ia a dizer que é um macho. Sem certezas, como disse.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Porque não se corta o ramo que está em frente do ninho de baixo?

Por vários motivos: primeiro porque aquele ninho está num local bastante distante da câmara e de acesso extremamente difícil, o que tornaria essa tarefa bastante complicada e demorada, com uma consequente perturbação das aves; segundo, porque esta é uma altura de grande sensibilidade da colónia a factores de perturbação, dado que alguns casais já tem ovo e correr-se-ia o risco de mortes dos embriões devido ao seu arrefecimento, caso os progenitores passassem muito tempo sem os aquecer, enquanto que outros casais ainda estão em fase de instalação e construção dos ninhos, sendo esse um período em que facilmente os abandonam se forem perturbados.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

É possível distinguir o macho da fêmea quando estão no ninho?

À primeira vista não, pois o macho e a fêmea são muito idênticos. No entanto, há uma pequenas diferenças de tamanho e na forma da cabeça, que poderão ajudar a distingui-los quando estão juntos e forem observados de muito perto, mas não é fácil e é preciso experiência. Pode ainda haver diferenças na plumagem, por exemplo se tiverem idades diferentes, e isso permitir distinguir os parceiros.
Por agora não sabemos se é o macho ou a fêmea que está no ninho agora.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Foi questionado se os grifos se sentem incomdados com a câmara, nomeadamente no clip de dia 31/01

Pela visualização do clip, o que se percebe é precisamente que o casal não se mostrou minimamente incomodado com a câmara, pois comportaram-se de forma totalmente natural, para quem está a ocupar uma "casa" que não lhe pertence. A aparente inquietação deve-se a isso, ao receio da chegada do "dono" (o Abutre de Rueppell), tanto que uns momentos após entrarem no ninho tentam consumar uma cópula (de forma muito desajeitada, é certo), comportamento que certamente não teriam se se sentissem incomodados com a câmara.

Vitor Pinheiro perguntou: que aves de rapina de grande porte se podem observar junto do rio Paiva, próximo de Alvarenga?

Não é fácil apresentar certezas apenas com esta informação, mas as espécies mais prováveis nessa região, para além do Milhafre-preto Milvus migrans, são a Águia-cobreira Circetus gallicus e a Águia-de-asa-redonda Buteo buteo. A águia-cobreira é maior que o Milhafre-preto e a Águia-de-asa-redonda é ligeiramente mais pequena. Não ocorrem nessa região nenhuma das grandes Águias, a Águia-real Aquila chrysaetos, a Águia-imperial Aquila adalberti e a Águia de Bonelli Hieraaetus fasciatus. Espero ter ajudado.

Que tipo de rocha e que plantas são as que passamos tanto tempo a ver na imagem?

A rocha é quartzito. Atravessam a zona centro de Portugal diversas serras de natureza quartzítica, onde geralmente ocorrem afloramentos rochosos de dimensão considerável.
Quanto às plantas que se vêem junto do ninho, confesso que não olhei bem para elas, pelo que não sei dizer o que são. O arbusto que se vê na vista panorâmica e que se encontra muito junto da câmara trata-se de uma Aroeira.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Qual a evolução da colónia das Portas de Ródão, onde temos a nossa câmara a filmar?

Os grifos provavelmente nidificaram regularmente nas Portas de Ródão no passado. Não se sabe com rigor quando desapareceram desse local, mas é provável que tal tenha acontecido nas décadas de 1950 ou 1960. Após esse longo período de ausência, o Grifo recolonizou as Portas de Ródão como nidificante em 1989, tendo-se instalado nesse ano apenas um casal, que não viria a ter sucesso reprodutor. Entre 1990 e 1995, não existem quaisquer referências à nidificação da espécie naquele local, mas desde então a colónia foi monitorizada anualmente por técnicos ao serviço do ICNB, que verificaram que a população apresentou uma evolução positiva, tendo vindo a aumentar anualmente, com excepção de 2002, onde se verifica uma queda acentuada de 40 para 16 casais (ver gráfico abaixo). Esta redução populacional deveu-se à realização de obras de electrificação e protecção da linha ferroviária, realizadas durante a época de reprodução, que perturbaram significativamente as aves e as impediram de se instalarem naquele local nessa época reprodutiva. Actualmente a colónia ainda não voltou a recuperar os efectivos existentes em 2001, contando com 32 casais na época de reprodução de 2007. No final do mês de Fevereiro teremos já uma estimativa aproximada para a dimensão da colónia este ano, mas ainda vai ser preciso esperar que todos os casais encontrem o seu local para nidificar e iniciem a reprodução.

Estou com dificuldade em carregar o gráfico, mas tentarei novamente amanhã.

Onde se distribuem os grifos em Portugal?

Em Portugal, a maior parte da população nidificante de grifos encontra-se confinada aos vales alcantilados do Douro e Tejo superiores e seus afluentes, havendo também colónias nas cristas quartzíticas serranas da região de Vila Velha de Ródão, Proença-a-Nova, Penha Garcia e S. Mamede. De acordo com o último censo nacional da espécie, realizado em 1999, estimaram-se 267-272 casais nidificantes, distribuídos por 31 colónias e 14 casais isolados, sendo que as colónias são maioritariamente fronteiriças (26 colónias; 211-216 casais), havendo somente 5 colónias não fronteiriças, com um efectivo total de 56 casais. Destas, a colónia das Portas de Ródão era a mais importante, representando, em 1999, cerca de 14% da população nidificante em território nacional e 24,5% da população regional. Em 2001 esta colónia representava cerca de 32% da população regional. Neste ano o total de casais nas Portas de Ródão era 40 e o efectivo da população regional era de 121 casais. Entre 1999 e 2001, a colónia das Portas de Ródão foi a maior em registada em território nacional.

Há ainda diversos locais onde os grifos surgem com regularidade, embora aí não nidifiquem, como são a zona do vale do Guadiana, as planícies de Castro Verde, a Zona de Protecção Especial de Mourão, Moura, Barrancos e os montados do norte Alentejano (zona de Portalegre, Monforte, Arronches, Elvas).

Em breve colocarei um mapa com a distribuição e quantificação no país.

Porque passa a câmara muito tempo a filmar um ninho vazio em vez de andar sistematicamente à procura dos grifos?

Porque a câmara apenas pode ser direccionada por uma pessoa, que tal como eu participa neste projecto de forma voluntária. Logo tem o seu trabalho para fazer e não pode estar permanentemente com atenção ao que se está a passar. É também essa a razão pela qual não posso responder de imediato aos vossos comentários e questões. Neste momento estamos a tentar resolver questões técnicas para poder instalar as funções de comando no meu computador e assim sempre haverá mais um "par de olhos" atentos.

Os grifos marcam/defendem território?

Não. Os grifos são geralmente coloniais, podendo as colónias ter várias dezenas ou mesmo centenas de casais, que nidificam muito próximos entre si. No entanto, cada casal defende acerrimamente o seu ninho e a área envolvente (alguns metros), não permitindo, geralmente a presença de indivíduos estranhos. Contudo, e dado que passam longos períodos afastados do ninho antes de efectuarem a postura, podem por vezes observar-se indivíduos estranhos ao casal no ninho, como aliás temos observado nos últimos dias com a nossa câmara. Estas visitas podem ter como objectivo avaliar a qualidade do local para tentar "tomá-lo" ao casal que o ocupa, ou simplemente "roubar" material de construção para o seu próprio ninho.