quinta-feira, 2 de abril de 2009
Terá terminado a postura?
Aparentemente a postura parece estar completa, dado não ter surgido nenhum ovo hoje, como era de esperar. No entanto será melhor aguardar mais um ou dois dias para ter a certeza, pois o intervalo entre a postura de cada ovo pode não ser totalmente regular. Como disse numa mensagem anterior, as posturas mais frequentes são as constituídas por 3 ou 4 ovos, pelo que é possível que esteja completa. A incubação geralmente inicia-se próximo do final da postura, pelo que as crias normalmente não nascem dia sim dia não, sim num intervalo mais curto.
O que faz ali uma terceira cegonha-preta?
Boa tarde,
Estou de volta depois de uma estadia bastante produtiva no campo. Descobri 2 ninhos novos, de casais que não eram conhecidos e monitorizei cerca de 20 casais diferentes. A maioria dos casais está agora nas paradas ou a iniciar as posturas. Só havia 6 casais (incluindo o nosso) já a incubar. A época de nidificação está um pouco atrasada este ano.
Reparei nos comentários mais recentes que apareceu um 3º indivíduo. É algo bastante normal nesta fase, ou seja no período fértil da fêmea (chegam a ver-se 4 ou mesmo 5 juntas). Normalmente estes indivíduos "extra" são machos, que, ou não estão ainda emparelhados, ou tem a sua fêmea já a incubar no ninho e que andam a tentar obter umas cópulas extra-par. É um fenómeno bem conhecido no mundo animal. Do ponto de vista do macho extra-par, poder gerar descendência que fica ao cuidado de outros progenitores é vantajoso, pois maximiza o seu sucesso reprodutivo (cria as crias dele e da sua parceira e ainda pode obter filhos "extra" cuidados por outros progenitores). Do ponto de vista da fêmea, pode ser vantajoso obter genes de machos potencialmente melhores ou mais atractivos do que o seu. Do ponto de vista do macho do casal, é algo a evitar a todo o custo, pois só teria a perder em estar a cuidar de filhos que não sejam os seus. Daí os machos fazerem a "guarda-do-par" e seguirem as fêmeas para todo o lado nesta fase. Irão certamente reparar que depois da fêmea iniciar a incubação esta proximidade entre eles torna-se menos notória.
Muito pontualmente pode também tratar-se de um outro casal em busca de ninho e que possa tentar usurpar um já ocupado, mas isto parece ser muito raro na cegonha-preta.
Estou de volta depois de uma estadia bastante produtiva no campo. Descobri 2 ninhos novos, de casais que não eram conhecidos e monitorizei cerca de 20 casais diferentes. A maioria dos casais está agora nas paradas ou a iniciar as posturas. Só havia 6 casais (incluindo o nosso) já a incubar. A época de nidificação está um pouco atrasada este ano.
Reparei nos comentários mais recentes que apareceu um 3º indivíduo. É algo bastante normal nesta fase, ou seja no período fértil da fêmea (chegam a ver-se 4 ou mesmo 5 juntas). Normalmente estes indivíduos "extra" são machos, que, ou não estão ainda emparelhados, ou tem a sua fêmea já a incubar no ninho e que andam a tentar obter umas cópulas extra-par. É um fenómeno bem conhecido no mundo animal. Do ponto de vista do macho extra-par, poder gerar descendência que fica ao cuidado de outros progenitores é vantajoso, pois maximiza o seu sucesso reprodutivo (cria as crias dele e da sua parceira e ainda pode obter filhos "extra" cuidados por outros progenitores). Do ponto de vista da fêmea, pode ser vantajoso obter genes de machos potencialmente melhores ou mais atractivos do que o seu. Do ponto de vista do macho do casal, é algo a evitar a todo o custo, pois só teria a perder em estar a cuidar de filhos que não sejam os seus. Daí os machos fazerem a "guarda-do-par" e seguirem as fêmeas para todo o lado nesta fase. Irão certamente reparar que depois da fêmea iniciar a incubação esta proximidade entre eles torna-se menos notória.
Muito pontualmente pode também tratar-se de um outro casal em busca de ninho e que possa tentar usurpar um já ocupado, mas isto parece ser muito raro na cegonha-preta.
domingo, 22 de março de 2009
Qual a dimensão da postura, tempo de incubação e período de permanência das crias no ninho?
As cegonhas-pretas realizam posturas que variam entre 1 e 6 ovos, sendo as de 3 ou 4 ovos as mais frequentes. Posturas com 2 ovos são raras e as de 5 são pouco frequentes. posturas de 1 ou 6 ovos são extremamente raras, tendo estas últimas apenas sido observadas 2 vezes, nas populações da Europa de Leste (uma delas na Hungria).
O tempo de incubação varia entre os 34 e os 36 dias e as crias iniciam os primeiros voos normalmente entre os 60 e os 70 dias. Continuarão a utilizar o ninho para dormir e descansar durante mais uma ou duas semanas, antes de se deslocarem para as áreas de concentração pós-nupcial, que antecedem a migração para os locais de invernada.
O tempo de incubação varia entre os 34 e os 36 dias e as crias iniciam os primeiros voos normalmente entre os 60 e os 70 dias. Continuarão a utilizar o ninho para dormir e descansar durante mais uma ou duas semanas, antes de se deslocarem para as áreas de concentração pós-nupcial, que antecedem a migração para os locais de invernada.
Como se procede à marcação das cegonhas-pretas com anilhas de cor?
Em Portugal marcaram-se com anilhas de cor quase exclusivamente crias no ninho. As únicas excepções foram alguns jovens já voadores que deram entrada em centros de recuperação (situação que aconteceu no ano passado com uma das crias deste casal, mas que infelizmente não sobreviveu), por exemplo por se terem magoado na fase em que ainda tinham pouca segurança no voo, e uma ave adulta que foi capturada deliberadamente para que lhe fosse colocado um emissor de satélite no âmbito de um estudo efectuado para avaliar a perigosidade de uma linha eléctrica.
A marcação das crias é precedida de uma preparação bastante cuidada, no sentido de estudar qual a melhor e mais segura abordagem aos ninhos e apenas é efectuada numa "janela" de tempo em que não são demasiado pequenas para marcar, nem suficientemente grandes para haver o risco de tentarem fugir, atirando-se dos ninhos antes do que fariam numa situação natural. Este período, no caso da cegonha-preta, situa-se entre os 30 e os 40 dias.
A marcação das crias é precedida de uma preparação bastante cuidada, no sentido de estudar qual a melhor e mais segura abordagem aos ninhos e apenas é efectuada numa "janela" de tempo em que não são demasiado pequenas para marcar, nem suficientemente grandes para haver o risco de tentarem fugir, atirando-se dos ninhos antes do que fariam numa situação natural. Este período, no caso da cegonha-preta, situa-se entre os 30 e os 40 dias.
Como distinguir os sexos na cegonha-preta?
A cegonha-preta, como a cegonha-branca, apresentam um dismorfismo sexual muito reduzido, sendo o macho e a fêmea praticamente iguais. Há contudo algumas pequenas diferenças que podem ser utilizadas, principalmente quando as aves são vistas juntas, mas que nem sempre são conclusivas. Os machos são geralmente ligeiramente maiores que as fêmeas e apresentam maior extensão de vermelho em volta do olho. A forma do bico por vezes também é distinta sendo a mandíbula inferior do macho ligeiramente abaulada, enquanto que a da fêmea é, por norma, direita (que lhe confere um aspecto de adaga).
Mas estes caracteres geralmente não permitem atribuir o sexo às aves com segurança, nem para os olhos mais experientes e treinados, especialmente se os indivíduos forem observados sozinhos. Só através de análise molecular, por exemplo a uma pena ou a umas gotas de sangue, ou por observação de cópulas em casais em que existam aves marcadas com anilhas se pode ficar com a certeza absoluta.
Em Portugal o ICNB desenvolveu-se recentemente um estudo que pretendeu, entre outros aspectos, analisar a variabilidade genética da população e comparar a estrutura genética das cegonhas-pretas da Península Ibérica com as da Europa Central e de Leste, populações que estariam, aparentemente separadas geograficamente. As amostras recolhidas permitiram também conhecer o sexo de um grande número de crias, agumas das quais foram já encontradas como aves adultas reprodutoras. Não é o caso do macho do casal que estamos a seguir. O seu sexo foi conhecido através do comportamento, como muitos de vós puderam já comprovar repetidas vezes.
Os resultados
Mas estes caracteres geralmente não permitem atribuir o sexo às aves com segurança, nem para os olhos mais experientes e treinados, especialmente se os indivíduos forem observados sozinhos. Só através de análise molecular, por exemplo a uma pena ou a umas gotas de sangue, ou por observação de cópulas em casais em que existam aves marcadas com anilhas se pode ficar com a certeza absoluta.
Em Portugal o ICNB desenvolveu-se recentemente um estudo que pretendeu, entre outros aspectos, analisar a variabilidade genética da população e comparar a estrutura genética das cegonhas-pretas da Península Ibérica com as da Europa Central e de Leste, populações que estariam, aparentemente separadas geograficamente. As amostras recolhidas permitiram também conhecer o sexo de um grande número de crias, agumas das quais foram já encontradas como aves adultas reprodutoras. Não é o caso do macho do casal que estamos a seguir. O seu sexo foi conhecido através do comportamento, como muitos de vós puderam já comprovar repetidas vezes.
Os resultados
sexta-feira, 20 de março de 2009
Notícias sobre a cegonha-preta anilhada
Bom dia,
Pude confirmar recentemente, e contando com o apoio de um fiel seguidor do site, o Jorge, do Arneiro, a anilha da cegonha-preta marcada com anilha de cor. Trata-se de um indivíduo que nasceu em 1999, num ninho não muito distante das Portas de Ródão (a 11 km para ser mais exacto) e que foi marcada por mim como cria não voadora, numa ninhada composta por 4 crias. É um macho.
Como suspeitava, é o mesmo que se encontrava a nidificar naquele local desde 2003, ano em que o casal das Portas de Ródão se instalou.
Esta ave reproduziu-se pela primeira vez no seu 4º ano de vida (geralmente iniciam a reprodução entre o 3º e o 5º ano) e tem vindo a nidificar naquele local desde então.
A sua parceira actual não se encontra marcada, mas a anterior estava e num próximo post contarei mais em detalhe o que sei sobre os indivíduos deste casal.
Boas observações. Eu estarei a monitorizar outros casais de cegonha-preta e outras espécies e espero que depois contem o que se passou hoje. Até breve
Pude confirmar recentemente, e contando com o apoio de um fiel seguidor do site, o Jorge, do Arneiro, a anilha da cegonha-preta marcada com anilha de cor. Trata-se de um indivíduo que nasceu em 1999, num ninho não muito distante das Portas de Ródão (a 11 km para ser mais exacto) e que foi marcada por mim como cria não voadora, numa ninhada composta por 4 crias. É um macho.
Como suspeitava, é o mesmo que se encontrava a nidificar naquele local desde 2003, ano em que o casal das Portas de Ródão se instalou.
Esta ave reproduziu-se pela primeira vez no seu 4º ano de vida (geralmente iniciam a reprodução entre o 3º e o 5º ano) e tem vindo a nidificar naquele local desde então.
A sua parceira actual não se encontra marcada, mas a anterior estava e num próximo post contarei mais em detalhe o que sei sobre os indivíduos deste casal.
Boas observações. Eu estarei a monitorizar outros casais de cegonha-preta e outras espécies e espero que depois contem o que se passou hoje. Até breve
sexta-feira, 4 de julho de 2008
Sinais de que o primeiro voo está próximo
A cria já consegue efectuar batimentos de asa que a elevam mais de um metro no ar. A plumagem está totalmente desenvolvida e tenho a certeza que já consegue voar. Agora compete aos progenitores estimularem-na a levantar voo. Por vezes observa-se que os progenitores recusam fornecer alimento à cria ou são muito relutantes em ceder a esses pedidos. Depois deslocam-se a voar e isso poderá estimular as crias a segui-os. Vamos estar atentos.
O primeiro voo aproxima-se...
Terminei recentemente o trabalho de censo e monitorização da população de grifo na beira Baixa e Alto Alentejo e estive no início da semana na colónia das Portas de Ródão. A produtividade da colónia foi bastante boa, tendo apenas falhado 3 dos 32 casais presentes. A maioria das crias estão mesmo na fase dos primeiros voos, havendo já alguns que se aventuram uns metros largos dos ninhos e efectuam já curtos voos.
No caso do "nosso grifinho/a, o primeiro voo terá que ser a sério, pois não tem locais onde pousar abaixo da plataforma onde está ninho. É por isso conveniente que treine muito e que esteja em forma para que quando se aventurar pelos penhascos o consiga fazer bem de modo a não cair no Tejo
No caso do "nosso grifinho/a, o primeiro voo terá que ser a sério, pois não tem locais onde pousar abaixo da plataforma onde está ninho. É por isso conveniente que treine muito e que esteja em forma para que quando se aventurar pelos penhascos o consiga fazer bem de modo a não cair no Tejo
terça-feira, 17 de junho de 2008
Porque foram as cegonhas-pretas da Estónia anilhadas com as anilhas acima da articulação?
Para cada espécie é utilizado um tamanho de anilha apropriado para a dimensão do seu tarso ou tíbia (parte abaixo e acima da articulação respectivamente). Na maior parte das espécies as anilhas são colocadas logo acima da pata, no tarso. No entanto, em algumas espécies de aves aquáticas que possuem tarsos e tíbias muito longos, como é o caso das cegonhas, das garças e das limícolas, as anilhas podem ser colocadas na tíbia (acima da articulação), dado ser mais "confortável" para as aves, que geralmente se alimentam dentro de água, em zonas com lama e é também mais vantajoso para os observadores humanos, uma vez que as anilhas de cor se mantém mais limpas e visíveis. Os anilhadores tem sempre como primeira preocupação o bem estar das aves e todos os resultados (positivos ou negativos) são comunicados para quem coordena a actividade de forma a que a anilhagem e as anilhas sejam o mais inócuas possível para as aves. Convém também realçar que a anilhagem de aves tem geralmente objectivos específicos de carácter científico que a justificam e só se realiza quando há um objectivo a atingir.
segunda-feira, 16 de junho de 2008
Como distinguir a cria dos progenitores?

Há vários aspectos que permitem uma distinção mais ou menos fácil, momeadamente:
cor do bico - o bico dos adultos é claro, cor de corno, enquanto que o da cria é preto
Cor da plumagem - os adultos apresentam o dorso castanho-claro, cor de areia, enquanto que os juvenis tem o dorso castanho mais escuro
Cor e forma do colar em volta do pescoço - o colar que apresentam no pescoço é branco e com aspecto de penugem no pescoço, enquanto que nos juvenis é de cor castanha e mais "eriçado" (que resulta das penas serem um pouco mais longas)
A adicionar a isso, o jovem tem um pescoço e cabeça que contrastam mais com a plumagem do dorso e que lhes dá um aspecto mais branco (resultante do contraste).
Adiciono uma imagem da nossa cria para que possam ver melhor as características que refiro
Porque varia tanto a frequencia com que os progenitores alimentam a cria?
Foram efectuadas várias questões relacionadas com a frequencia da alimentação da cria, da aparente escassez de alimento quando esta era mais quequena e da existência de alimentadores de aves necrófagas nas proximidades da colónia. Vou ver se consigo responder a tudo de uma assentada.
Os requisitos energéticos da cria aumentam à medida que cresce, ou seja, a quantidade de alimento que necessita diariamente vão sendo maiores à medida que cresce. Como referi num texto anterior, a disponibilidade de alimento para esta espécie é muito variável (numa situação natural), pois este ocorre de forma irregular no espaço e no tempo e é efémero, ou seja a duração de uma fonte de alimento é muito limitada. Os grifos, como outros abutres e muitas outras espécies de aves em que o alimento está disponível de forma idêntica (por exemplo muitas das espécies de aves marinhas) estão adaptados a esta limitação e possuem mecanismos que lhes permitem sobreviver, como acumularem reservas e poderem passar vários dias sem se alimentarem; outra adaptação e comerem grandes quantidades quando tem oportunidade para tal (no caso dos grifos, chegam a ter dificuldade em levantar voo, após uma grande refeição). Nos primeiros tempos de vida da cria a quantidade de alimento que necessita diariamente é relativamente pequena, embora seja necessária alguma regularidade na sua alimentação por parte dos progenitores, pois a sua capacidade de "jejuar" é muito limitada. Embora pareça que nos primeiros tempos os progenitores a alimentaram poucas vezes, o que aconteceu é que lhe forneceram alimento em quantidade e com regularidade suficiente para que se continuasse a desenvolver bem. Mais recentemente o apetite da cria aumentou significativamente e nesta fase parece que tudo o que os progenitores tragam é pouco, pelo que comerá sempre que os progenitores lhe tragam alimento. Nos primeiros dias após a saída do ninho, possivelmente iremos assistir a verdadeiras perseguições dos progenitores por parte da cria que insistentemente lhes irá pedir alimento. Estes acederão aos pedidos nas primeiras semanas, mas posteriormente dar-lhe-ão cada vez menos refeições, o que a forçará a procurar alimento por si própria, seguindo os progenitores ou outros elementos da colónia. Este é geralmente um dos períodos mais críticos na vida das crias, em que geralmente se observa uma maior mortlidade, pois muitos morrem nos primeiros meses por não conseguirem alimento suficiente.
Quanto à existência de alimentadores de aves necrófagas na região, não há nenhum em funcionamento nas proximidades. O único que está a funcionar regularmente encontra-se na serra da Malcata e é gerido pelo ICNB. No entanto, como nesta zona e nas regiões espanholas adjacentes a criação de gado é feita regra geral em regime extensivo, em que os animais que morrem por vezes não são encontrados de imediato pelos proprietários, antes destes activarem o sistema de recolha obrigatório, permite que os abutres se alimentem. Por outro lado toda a região do Tejo Internacional é muito rica em ungulados silvestres, nomeadamente veados e javalis, e estes também constituem uma fonte de alimento bastante importante.
Os requisitos energéticos da cria aumentam à medida que cresce, ou seja, a quantidade de alimento que necessita diariamente vão sendo maiores à medida que cresce. Como referi num texto anterior, a disponibilidade de alimento para esta espécie é muito variável (numa situação natural), pois este ocorre de forma irregular no espaço e no tempo e é efémero, ou seja a duração de uma fonte de alimento é muito limitada. Os grifos, como outros abutres e muitas outras espécies de aves em que o alimento está disponível de forma idêntica (por exemplo muitas das espécies de aves marinhas) estão adaptados a esta limitação e possuem mecanismos que lhes permitem sobreviver, como acumularem reservas e poderem passar vários dias sem se alimentarem; outra adaptação e comerem grandes quantidades quando tem oportunidade para tal (no caso dos grifos, chegam a ter dificuldade em levantar voo, após uma grande refeição). Nos primeiros tempos de vida da cria a quantidade de alimento que necessita diariamente é relativamente pequena, embora seja necessária alguma regularidade na sua alimentação por parte dos progenitores, pois a sua capacidade de "jejuar" é muito limitada. Embora pareça que nos primeiros tempos os progenitores a alimentaram poucas vezes, o que aconteceu é que lhe forneceram alimento em quantidade e com regularidade suficiente para que se continuasse a desenvolver bem. Mais recentemente o apetite da cria aumentou significativamente e nesta fase parece que tudo o que os progenitores tragam é pouco, pelo que comerá sempre que os progenitores lhe tragam alimento. Nos primeiros dias após a saída do ninho, possivelmente iremos assistir a verdadeiras perseguições dos progenitores por parte da cria que insistentemente lhes irá pedir alimento. Estes acederão aos pedidos nas primeiras semanas, mas posteriormente dar-lhe-ão cada vez menos refeições, o que a forçará a procurar alimento por si própria, seguindo os progenitores ou outros elementos da colónia. Este é geralmente um dos períodos mais críticos na vida das crias, em que geralmente se observa uma maior mortlidade, pois muitos morrem nos primeiros meses por não conseguirem alimento suficiente.
Quanto à existência de alimentadores de aves necrófagas na região, não há nenhum em funcionamento nas proximidades. O único que está a funcionar regularmente encontra-se na serra da Malcata e é gerido pelo ICNB. No entanto, como nesta zona e nas regiões espanholas adjacentes a criação de gado é feita regra geral em regime extensivo, em que os animais que morrem por vezes não são encontrados de imediato pelos proprietários, antes destes activarem o sistema de recolha obrigatório, permite que os abutres se alimentem. Por outro lado toda a região do Tejo Internacional é muito rica em ungulados silvestres, nomeadamente veados e javalis, e estes também constituem uma fonte de alimento bastante importante.
quinta-feira, 5 de junho de 2008
Outra possível explicação para o ataque do Abutre de Rueppell à cria
Ontem à noite enquanto falava com um amigo e grande ornitólogo Carlos Noivo, que trabalha como Vigilante da Natureza na Reserva Natural do Paul do Boquilobo, ele avançou com outra explicação para o comportamento que observamos no clip de dia 29 de Maio, resultado de observações que fez no local.
O Carlos observou por 3 ocasiões diferentes (pelo menos em 2 anos diferentes) o Abutre de Rueppell atacar crias de grifo, em ninhos diferentes, para as obrigar a regurgitar o que tinham ingerido e conseguir assim uma refeição "grátis" com muito baixo custo energético para ele. Se repararem bem no clip de dia 29, vê-se que tal pode ter acontecido, pois após a agressão inicial, ele passa um bocado com a cabeça em baixo, sendo possível que se esteja de facto a alimentar de comida regurgitada pela cria.
Infelizmente as imagens não são totalmente esclarecedoras, mas parecem suportar esta hipótese. Mais uma vez se demonstra a grande utilidade deste projecto para a observação de comportamentos raros e de difícil observação, pena não se conseguir observar a totalidade da área onde a cria se desloca. Pode ser que ainda se observem mais comportamentos interessantes nos próximos dias.
O Carlos observou por 3 ocasiões diferentes (pelo menos em 2 anos diferentes) o Abutre de Rueppell atacar crias de grifo, em ninhos diferentes, para as obrigar a regurgitar o que tinham ingerido e conseguir assim uma refeição "grátis" com muito baixo custo energético para ele. Se repararem bem no clip de dia 29, vê-se que tal pode ter acontecido, pois após a agressão inicial, ele passa um bocado com a cabeça em baixo, sendo possível que se esteja de facto a alimentar de comida regurgitada pela cria.
Infelizmente as imagens não são totalmente esclarecedoras, mas parecem suportar esta hipótese. Mais uma vez se demonstra a grande utilidade deste projecto para a observação de comportamentos raros e de difícil observação, pena não se conseguir observar a totalidade da área onde a cria se desloca. Pode ser que ainda se observem mais comportamentos interessantes nos próximos dias.
terça-feira, 3 de junho de 2008
Que informação temos sobre os progenitores? Estão anilhados?
Os progenitores não estão anilhados, pelo que não é possível ter a certeza absoluta de serem os mesmos ao longo dos anos que o ninho tem estado ocupado. No entanto, observou-se fidelidade aos ninhos por diversos anos consecutivos de alguns indivíduos anilhados e o facto do casal ser constituído por dois indivíduos bem adultos (com mais de 8 anos, idade a partir da qual se torna impossível distinguir as classes de idades - sub-adultos e adultos) leva a supor que se trata do mesmo casal. Caso assim seja, criaram com sucesso uma cria em cada um dos últimos 5 anos.
Quanto tempo passam os progenitores fora do ninho?
É muito variável e depende da disponibilidade de alimento. O facto de se alimentarem de animais mortos faz com que, em situações naturais, o alimento surja de forma irregular no espaço e no tempo. Os adultos, tal como as crias bem desenvolvidas, podem passar vários dias sem comer, peo que as visitas para alimentar as crias podem não ser diárias em alturas de escassez de alimento.
Pessoalmente observei na zona do Tejo Internacional um progenitor de uma cria pequena, que estava anilhado, a dormir noutra colónia a cerca de 20 km do seu ninho. Provavelmente ter-se-à deslocado para muito longe em busca de alimento (podem afastar-se até 80 km da colónia) e dormiu longe do ninho, provavelmente para continuar a busca ou então por haver naquela zona uma fonte de alimento.
Pessoalmente observei na zona do Tejo Internacional um progenitor de uma cria pequena, que estava anilhado, a dormir noutra colónia a cerca de 20 km do seu ninho. Provavelmente ter-se-à deslocado para muito longe em busca de alimento (podem afastar-se até 80 km da colónia) e dormiu longe do ninho, provavelmente para continuar a busca ou então por haver naquela zona uma fonte de alimento.
Porque não se vêem ambos os progenitores no ninho?
Normalmente um dos progenitores permanece junto da cria durante as primeiras fases do seu desenvolvimento, para o proteger de predadores e dos elementos naturais (sol, chuva), frio. Na fase inicial é frequente observar os dois progenitores no ninho, mas assim que a cria atinge tamanho para resistir aos elementos e o risco de predação se torna mais reduzido, é mesmo normal que fique sozinho. Há uma grande variação entre os casais, sendo que uns passam muito tempo no ninho e outros pouco, sendo que isso também pode ser influenciado pela disponibilidade de alimento (menor disponibilidade, mais tempo fora do ninho em busca de alimento). As visitas ao ninho dos progenitores passam a ser cada vez mais rápidas, sendo que as trocas podem ocorrer muito rapidamente. Ontem ao final da tarde observei uma troca e foi um a chegar e o outro a levantar e se não estivesse com atenção nem me teria apercebido.
A cria que estamos a seguir é um(a) sortudo(a), pois tem protecção quase permanente de um dos progenitores. Como foi possível observar no vídeo de dia 29, ainda há algumas ameaças às crias mesmo bastante desenvolvidas, como a agressividade de outros membros da colónia, neste caso o abutre de Rueppell.
A cria que estamos a seguir é um(a) sortudo(a), pois tem protecção quase permanente de um dos progenitores. Como foi possível observar no vídeo de dia 29, ainda há algumas ameaças às crias mesmo bastante desenvolvidas, como a agressividade de outros membros da colónia, neste caso o abutre de Rueppell.
De que espécies são os arbustos junto do ninho?
Há duas espécies: o zambujeiro Olea europaea var. Sylvestris (o arbusto maior) e no canto inferior direito vê-se uma cornalheira Pistacea terebinthus (de cor verde mais clara).
Questão sobre o comportamento da cegonha-preta da Estónia
Fui questionado pela Luisa Moreira se já tinha presenciado o comportamento observado na Estónia em que a progenitora come duas das crias recém-nascidas, fenómeno designado por cronismo. Não, nunca presenciei tal comportamento (tal como a maioria dos especialistas que trabalham com estas espécies), pois numa situação normal isso requer uma grande dose de "sorte" em estar a observar o ninho no momento em que esse comportamento acontece. Tendo em conta que estas espécies são muito sensíveis à perturbação, quando as monitorizamos tentamos ser o menos intrusivos possível, ou seja, observamos geralmente a uma distância considerável e por curtos períodos de tempo, só mesmo por mero acaso poderia presenciar tal comportamento. No entanto, já suspeitei diversas vezes que este comportamento se tivesse verificado em ninhadas em que era conhecida a dimensão da postura e nos primeiros dias após a eclosão o número de crias era já inferior ao número de ovos. Isto pode ter-se devido a cronismo, mas também a morte natural da(s) cria(s), que são imediatamente removidas (ingeridas ou levadas para fora do ninho) pelos progenitores, mas nunca temos a certeza a não ser que se presencie a ocorrência. Apenas em situações de colocação de câmaras como a do nosso projecto ou dos outros que se encontram na net se podem extraír dados sobre estes fenómenos comportamentais raros e muito pontuais e isso aumenta significativamente o valor científico destes projectos.
Esse comportamento embora aos nossos olhos pareça cruel, é um mecanismo de regulação utilizado pelos progenitores quando "sentem" (isto é, avaliam com base na experiência que vivem dia a dia) que a disponibilidade de alimento vai ser insuficiente para assegurar que conseguem criar todas as crias. Assim preferem eliminar uma ou várias crias (ingerindo-as como recurso alimentar) do que deixá-las morrer à fome e assegurar que conseguem criar em boas condições as restantes.
Esse comportamento embora aos nossos olhos pareça cruel, é um mecanismo de regulação utilizado pelos progenitores quando "sentem" (isto é, avaliam com base na experiência que vivem dia a dia) que a disponibilidade de alimento vai ser insuficiente para assegurar que conseguem criar todas as crias. Assim preferem eliminar uma ou várias crias (ingerindo-as como recurso alimentar) do que deixá-las morrer à fome e assegurar que conseguem criar em boas condições as restantes.
segunda-feira, 2 de junho de 2008
Qual o sexo do grifinho?
Não é possível saber, pois nesta fase não há como distinguir os machos das fêmeas. A única maneira de termos ficado a saber teria sido retirar algumas penas pequenas ou penugem e fazer uma análise laboratorial. Contudo para a recolha de amostras biológicas em animais selvagens vivos é necessária uma autorização do ICNB, dado ser um processo intrusivo, que é concedida se o estudo em causa justificar essa recolha. Como aqui se tratava apenas de "matar" a curiosidade de todos nós essa autorização não foi pedida.
Ficou assustado? Foi agressivo?
Assustado ficou certamente. Qualquer ser selvagem que veja aparecer perto de si outro muito maior fica assustado. A sua reacção à minha aproximação foi fingir-se de morto, mas depois de o começar a manipular ainda esboçou alguma reacção a tentar bicar e afastar-se, daí ter-lhe colocado uma toalha sobre a cabeça. Assim acalmou-se e depois de terminar ficou muito sossegado no ninho. Claro que para isso a aproximação e saída do ninho são sempre efectuados com movimentos suaves e com o menor ruído possível.
Quanto pesa o grifinho e quais as restantes biometrias?
Não foram efectuadas quaisquer medições ou pesada a cria. Não porque não fosse interessante saber, mas por não haver uma necessidade objectiva em o fazer, evitando-se assim que o perturbasse mais ainda. Justificar-se-ía efectuar todas essas medições se houvesse, por exemplo, um estudo em curso para determinar a taxa de crescimento da espécie, mas tirar medições em um indivíduo isolado não faz muito sentido. No caso particular do peso, que pode ser um bom indicador do seu estado de desenvolvimento, a única razão pela qual não o pesei foi não ter uma balança portátil para aves daquela dimensão. Arriscar-me-ía a dizer que tem pelo menos uns 6 kg.
No entanto fiz uma avaliação à sua condição física e está muito bem.
No entanto fiz uma avaliação à sua condição física e está muito bem.
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